Ânsia Eterna, de Verônica Berta

Com roteiro e ilustração de Verônica Berta, a HQ Ânsia Eterna (finalista do prêmio Jabuti) foi baseada nos contos “Ânsia eterna”, “Os porcos” e “A caolha” da escritora brasileira Júlia Lopes de Almeida.

O conto que dá nome à HQ abre o volume e serve como introdução para os demais, já que nas primeiras páginas há uma discussão entre dois personagens sobre arte e literatura, inclusive, a primeira fala (balão) do quadrinho é “E o teu livro?”. 

Durante a conversa, um dos personagens fala sobre sua dificuldade de conceber e criar uma obra de arte, um livro, sem defeitos, o que leva a uma discussão sobre como a imperfeição da arte, de certa maneira, reflete a imperfeição do ser humano e da própria vida, e, para ilustrar, o escritor conta um caso que ocorreu recentemente com ele.

O rapaz mora apenas com a mãe e, em certo momento, ela viaja deixando-o sozinho. Em um de seus passeios solitários, ele vê uma moça belíssima que o encara de volta fixamente. Sem coragem de falar com ela, passam-se vários dias em que sonha com o amor da jovem: deduzindo que tanta beleza física com certeza refletiria retidão de caráter e modos que a fariam uma excelente esposa e dona de casa – esses pensamentos se firmam ainda mais quando ele vê a bagunça em que sua casa se tornou na ausência da mãe…   

1º conto

No segundo conto, “Os porcos”, deparamo-nos com uma cabocla grávida. Ouvimos uma de suas discussões com seu pai e ficamos sabendo que ela é mãe solteira, que o pai da criança é um senhor da casa grande e que seu próprio pai ameaça jogar o neto, a criança bastarda, aos porcos assim que nascer… 

Apesar da ameaça física dos porcos, a impressão que fica é que os porcos, na verdade, são os homens do conto: os que abusam da inocência das mulheres menos favorecidas prometendo-lhes amor e uma vida sem pobreza, mas abandonando-as assim que os primeiros sinais de gravidez surgem; e ainda os homens da própria família que praticam tamanha violência psicológica.

2º conto

A imagem que abre o terceiro e último conto é a própria caolha, cuja história conhecemos mais pelo olhar e pela relação com o seu filho. 

O menino, que é amoroso com a mãe, à medida que vai crescendo começa a sentir vergonha da aparência dela, pois ele é chamado pelas outras crianças e, também depois de adulto, pelos vizinhos e conhecidos como “o filho da caolha”.  

A alcunha o aborrece e conforme alguns de seus planos vão dando errado, ele começa a atribuir seu fracasso à relação que tem com a mãe; assim, o menino antes carinhoso, agora torna-se distante e frio. A caolha, por sua vez, resignada – como uma boa mãe, é extremamente compreensiva e, mesmo com o desprezo do filho, continua se dedicando a ele da melhor maneira possível… 

3º conto

Podemos encontrar nos três contos escolhidos os papéis que as mulheres ocupavam na sociedade da época, comportamentos que eram esperados e cobrados, mas, nas entrelinhas das histórias, encontramos também a crítica e os questionamentos desse modo de ver a mulher e sua função social.

O mais impressionante é como Verônica Berta conseguiu transpor essa sensação de opressão e questionamento com imagens, pois, se comparado com os contos, pouquíssimo texto foi usado, transmitindo toda essa atmosfera através da força das imagens, das paisagens e, principalmente, das expressões dos personagens.

Expressão

Uma curiosidade com relação à Júlia Lopes de Almeida é que ela foi uma das idealizadoras e fundadoras da Academia Brasileira de Letras; seu nome constava na lista dos primeiros 40 imortais, mas foi cortado na primeira reunião em que se decidiu seguir o modelo da Academia Francesa – que era exclusivamente masculina. Em seu lugar, entrou seu marido, o poeta português Filinto de Almeida, que recebeu o apelido de “acadêmico consorte”. O veto a mulheres na ABL foi extinto apenas em 1977 com a nomeação de Rachel de Queiroz para a cadeira nº 5.

Ânsia eterna
Título:
Ânsia Eterna
Autora:
Verônica Berta
Editora: SESI-SP
Páginas: 56
Valor de capa: R$ 39,90


Para quem quiser saber mais:

Júlia Lopes de Almeida e Ânsia eterna

Verônica Berta
Instagram: @veronica.berta
Facebook: @veberta
Twitter: @veronicaberta_

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