A doçura poética de Manoel de Barros

Já nas primeiras linhas do prefácio do livro Meu quintal é maior do que o mundo, antologia de Manoel de Barros (1916-2014), o leitor conhece um pouco do que se passava na cabeça desse cuiabano de costumes simples, que passou a infância numa fazenda e, depois, num internado até ser matriculado – aos 12 anos – no Colégio São José, no Rio de Janeiro.

O texto escrito por José Castelo mostra uma das principais motivações do poeta para a escrita: “Uso a palavra para compor meus silêncios”.

Manoel de Barros 2 - Ricardo Silva

A obra, publicada pela editora Alfaguara e composta por 168 páginas, reúne poemas escritos ao longo de mais de 70 anos. O livro serve como porta de entrada para aquele leitor que ainda não conhece o autor, mas que, certamente, irá se encantar com seus textos.

Em “Eu não vou perpetuar a paz”, Manoel, observando um homem comum sentado num banco de praça, se põe a pensar: “se eu me sentasse a seu lado”… daí a imaginação do poeta começa a trabalhar e a produzir o que aconteceria se ele o abordasse, o que poderia descobrir sobre aquele pacato cidadão, mas, no final, conclui: “Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto”.

Já no capítulo “Matéria de prosa”, o escritor elenca tudo aquilo que serve para a poesia; cito duas aqui: “Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado” e “As coisas sem importância são bens para a poesia”.

Manoel de Barros 4 - Ricardo Silva

O que o autor quer nos mostrar é que as coisas mais simples são poéticas e delas é que podemos extrair nossos grandes pensamentos. Para ele, a poesia era “voar fora da asa”, era poder usar elementos simples do cotidiano, da vida simples na roça, como material para a sua obra. Coisa que fez com muita competência.

Além desse apego à simplicidade, Manoel também tinha seus momentos de recolhimento: “Solidão tem rosto de antro”; e em “Seis ou treze coisas que aprendi sozinho”, diz: “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”.

Manoel de Barros se resumia como um homem formado por desencontros.

Sobre o poeta

Manoel de Barros publicou mais de 20 livros, entre eles, Face imóvel (1942), Poesias (1946), Compêndio para uso dos pássaros (1961), Gramática expositiva do chão (1969), Matéria de poesia (1974), O guardador de águas (1989), Livro sobre nada (1996), Retrato do artista quando coisa (1998), O fazedor de amanhecer (2001) e Portas de Pedro Vieira (2013).

Manoel gostava de usar elementos de sua infância para compor seus poemas, além de confessar que 90% do que escrevia era invenção e só 10% era mentira. Era um homem único, que escrevia verdades da vida a partir de coisas simples. E eu, como aprendiz de poeta, também lembro-me com carinho e saudade da infância, quando a vida parecia ser bem mais divertida e simples e, assim, copio Manoel de Barros ao término deste texto: “Hoje eu desenho o cheiro das árvores” e deixo uma pergunta que poderá me ajudar:  O que você, nosso leitor do Cabruuum, acha que é preciso para ser um poeta?

A exposição em São Paulo

A 43ª Ocupação (http://www.itaucultural.org.br/secoes/agenda-cultural/a-43a-ocupacao-homenageia-o-poeta-manoel-de-barros) do Itaú Cultural homenageia o poeta Manoel de Barros e estará em cartaz até o dia 7 de abril. A mostra ocorre de terça a sexta-feira, das 9h às 20h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h, no piso térreo do centro cultural que fica na Avenida Paulista, 149. A entrada é gratuita.

Manoel de Barros 6 - Ricardo Silva

Lá você poderá conhecer um pouco mais da vida e obra do autor e poderá contemplar manuscritos, vídeos com entrevistas e depoimentos emocionantes, como quando ele se recorda de um professor, no Rio de Janeiro, que tentava ensinar poesia para os alunos e foi demitido, ou dos engraçados, como o relato de sua esposa contando que o marido levou um livro de gramática para a lua de mel.

O site é um complemento da exposição física e é de se esbaldar! (http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/manoel-de-barros/)


Para quem quiser saber mais:

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Livro: Meu quintal é maior do que o mundo
Autor: Manoel de Barros
Editora: Alfaguara
Páginas: 168
Formato: 15 X 23 cm
Acabamento: brochura
Preço: R$ 29,90 (livro físico) e R$ 16,90 (livro digital)

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