Obra premiada, “A civilização do Espetáculo”, ressalta decadência da cultura na sociedade contemporânea

Você, meu jovem leitor, já deve ter ouvido o termo “indústria cultural” – termo criado pelos filósofos alemães, integrantes da Escola de Frankfurt,– Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Uma obra artística criada com objetivo de atingir toda a massa popular levando a eles produto cultural de conteúdo muitas vezes duvidoso, mas prontamente disseminado por meios dos veículos de comunicação de massa.

Pois bem, na obra literária do Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa “A civilização do Espetáculo” (Tradução de Ivone Benedetti; Editora Objetiva, 208 páginas, lançado em 2013) somos colocados diante da triste realidade antevista pelos pensadores germânicos. Infelizmente, vivemos sobre a falsa ilusão de que adquirimos algo culturalmente bom, mas na verdade, não.

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Com essa premissa,  com olhar crítico e atento, o escritor peruano trata de temas como religião, erotismo, política e até os nossos amados e queridos filmes de super-heróis (vê se pode!), tudo em seis capítulos. O livro começa discutindo a mudança etimológica da palavra “cultura”, que atravessa uma crise profunda e entrou em decadência.

“Conceito de cultura atualmente é tudo e nada ao mesmo tempo”.

As argumentações de Mario Llosa traduzem em palavras um sentimento que tenho há muitos anos e me angustia o peito: as pessoas hoje vão ao cinema, ao teatro, à ópera, ao show, ao museu, à exposição, ou seja, a diversas manifestações culturais e o fazem não para agregarem conhecimento, mas apenas com o intuito de aparecerem, para si mesmas e para os outros, como cultas.

Para isso, essas pessoas, após uma ida em alguns desses lugares, publicam tudo em redes sociais a espera da aprovação alheia e, infelizmente, dão-se por satisfeitas e se julgam cultas, sem absorver o conteúdo, pois estavam mais preocupadas em tirar fotos ou filmar e se esquecem de que o trabalho intelectual, que culmina em uma pessoa minimamente aculturada, leva alguns anos, mas isso nos tempos da voracidade das aparências é solenemente ignorado.

E esse processo de tornar tudo espetacular passa por diversos segmentos da cultura, alguns nem imaginados por mim. O erotismo no capítulo “Sexo Frio”, por exemplo, onde o autor em determinado momento menciona: “Fazer amor em nossos dias, no mundo ocidental, está muito mais perto da pornografia que do erotismo e, paradoxalmente, isso resultou como deriva degradada e perversa de liberdade”. Será que estamos perdendo a fantasia, o mistério, a criatividade? Pode virar uma mera ginástica?

No capítulo seguinte, “Cultura, política e poder”, Llosa avalia os políticos e a imprensa sensacionalista e questiona como deve ser divertido espiar a intimidade do próximo, como flagrar um ministro de cuecas ou investigar os desvios sexuais de um juiz.

“A imprensa sensacionalista não corrompe ninguém; nasce corrompida por uma cultura que, em vez de rejeitar as grosseiras intromissões na vida privada das pessoas, as reivindica, pois esse passatempo, farejar a imundície alheia, a jornada do funcionário pontual, do profissional entediado e da dona de casa cansada”, argumenta o autor.

Tratando de desapego a lei, você, cidadão inocente, que costuma comprar filmes piratas ou vê-los em sites repleto dos mais recentes lançamentos do cinema sem pagar nada por isso… Llosa mostra como esse mal reina onipresente no entretenimento audiovisual dentro da sociedade contemporânea. Tudo é pirateado livremente, desde livros a música comercializada sem dores na consciência, seja de quem vende ou compra. A prática ilegal do comércio de filmes decretou o fim de muitas locadoras de pequeno e grande porte. Confesso, com certo saudosismo, que amava ir a locadoras. Quantas vezes eu entrei sem ter a menor ideia do que queria ver e saia de lá com quatro filmes, ou mais, nas mãos.

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Mario Vargas Llosa mostra um cenário sombrio (mas real) da cultura contemporânea. Estamos realmente passando por uma transformação e ela não me parece muito inteligente. Eu percebo que os verdadeiros intelectuais estão dentro das universidades falando para poucos e percebo, também, que os grandes estadistas acabaram. Hoje temos falastrões midiáticos que estão mais preocupados em como devem aparecer na grande mídia do que cuidar da coisa pública e do seu semelhante.

Tristes dias esses que se aproximam em que a cultura virou um mero e barato entretenimento, um jogo prazeroso que de alguma forma apenas compensa a nossa servidão da vida.

PS: depois de tudo o que você leu neste relato, eu indico a obra, mesmo ela trazendo essa abordagem pessimista sobre a cultura. É importante para analisarmos qual a contribuição que estamos trazendo para a sociedade e as consequências dos nossos atos.

Mario Vargas Llosa ajuda a interpretar situações do cotidiano que não são vistas com muita clareza durante a rotina diária e faz uma análise mais criteriosa. É um livro completo, que vale o preço, e me surpreendeu pela forma como o autor disseca os problemas que deterioram o termo cultura.

Uma dica: após a leitura de “A civilização do Espetáculo” seria interessante seguir com algum pensador que discute este mesmo tema como, por exemplo, Zygmunt Bauman (Amor Liquido).

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