Fracasso de Público: as pessoas comuns que vivem nas HQs

Originalmente lançada na década de 1990 como série publicada de forma independente por Alex Robinson, a HQ Fracasso de Público foi relançada em 2001 pela editora americana Top Shelf e, a partir daí, ganhou várias premiações da área como o Prêmio Eisner (Talento que Merece Maior Reconhecimento), o Oscar dos quadrinhos, e o Festival de Angoulême (Prêmio de Primeiro Álbum), na França.

No Brasil, a obra foi dividida em três volumes, o primeiro sendo lançado no final de 2009 pela Gal Editora.

Nova-iorquino, Robinson trabalhou sete anos em uma livraria, exatamente como Sherman, um dos personagens principais desta saga… e parece ter sido desta experiência do autor que vemos retratadas várias situações com clientes, chefe, aspirações artísticas etc. Sim, esta história tem um tom de autobiografia, mas não parece ser esse exatamente o caso. É apenas a saga de um grupo de jovens adultos, todos meio falidos, tentando sobreviver à cidade grande enquanto desenvolvem relacionamentos amorosos e de amizade que, às vezes, sobrevivem à vida, às vezes, não. Como em qualquer vida ordinária.

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Heróis Mascarados e Amigos Encrencados

Neste primeiro volume, acompanhamos Sherman, um atendente de livraria que sonha em fazer sucesso como escritor; seu melhor amigo Ed, um quadrinista que está tentando trilhar seu caminho nesta indústria que dá muitas alegrias aos leitores, mas que pode ser bem cruel com quem trabalha nela; Stephen e Jane, casal que aluga um quarto para Sherman em seu apartamento, ele é professor de história e ela, quadrinista que está produzindo uma graphic novel sobre Emma Goldman.

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Muitos autores, quando criam obras “semiautobriográficas”, normalmente usam algum personagem como alter ego. Neste caso, parece que Robinson se dividiu em Sherman e Ed. O primeiro com todos os “causos” de livreiro e o segundo com a luta para se firmar e ser reconhecido no mundo da nona arte.

Os “heróis mascarados” começam a aparecer quando Ed acaba não conseguindo um emprego na Zoom Comics, maior e mais famosa editora de quadrinhos, mas é indicado para trabalhar como assistente de Irving Flavor, um senhor septuagenário, tremendamente mal-humorado, que, nos anos 1940, criou um personagem chamado Nightstalker (tipo o nosso Batman), que se tornou o super-herói mais famoso do mundo. Porém, conforme a trama vai andando, descobrimos que Flavor vive na penúria, pois a Zoom roubou os direitos sobre seu personagem.

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E aqui é impossível não fazer um paralelo com a história de Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman que, durante várias décadas, assistiram ao seu personagem se tornar um dos mais famosos e rentáveis do planeta sem receber reconhecimento ou um tostão das vendas; ou mesmo relembrar toda a briga que Jack Kirby teve com a Marvel até o fim da vida sobre os direitos dos personagens e histórias que criou na editora.

Desta forma, conforme vai contando a saga dessas pessoas-personagens comuns tentando ganhar a vida, Robinson também faz, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma crítica a esse não tão maravilhoso assim – agora sabemos – mundo dos quadrinhos.

Desencontro de Titãs

Quem gosta de quadrinhos de super-heróis sabe que este subtítulo é uma clara zoação ao tom sempre épico que algumas das batalhas que encontramos neste tipo de história têm (ou querem ter). Mas, na vida real (nossa e dos personagens de Fracasso de Público), a gente aprende que a vida também é feita de desencontros, mal-entendidos e, por que não, alguns desentendimentos e ressentimentos. A gente aprende, caindo muitas vezes, que nem todas as batalhas podem ser vencidas, mesmo que a gente esteja do lado do bem (ou acredite estar).

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Conforme a história avança, outros personagens e subtramas vão se unindo às tramas principais. Como Dorothy, namorada de Sherman, que trabalha como editora assistente numa prestigiada revista chamada Metro Chic, e que todos ao seu redor consideram uma pessoa difícil de conviver.

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Uma das características mais legais desta HQ é a metalinguagem que o autor usa para que nós leitores nos aproximemos dos personagens no que eles têm de mais humano. Robinson faz isso apresentando estas pessoas logo no início de cada volume com uma espécie de minibiografia e, entre um capítulo e outro, fazendo com que elas respondam a perguntas do tipo “Quais são algumas das suas coisas favoritas na vida?”, “O que você quer ganhar no Natal” – esta, quem responde são as versões criança dos personagens –, “Qual será o título da sua autobiografia?” e, a minha favorita neste segundo volume, o “Sim”, na qual os personagens respondem fazendo uma pergunta pessoal cuja resposta seja sim!

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Pode parecer conteúdo de dinâmica de grupo, mas as respostas a estas perguntas aparentemente bobas são, na verdade, os pequenos detalhes que fazem com que as pessoas ao nosso redor nos conheçam como somos em cada miudeza que faz parte do dia a dia. E que permitem que conheçamos os “titãs” desta saga da vida comum.

Adeus

Neste terceiro e último volume, é onde Sherman, Ed, Stephen, Jane, Irving, Dorothy e todas as outras pessoas que foram juntando suas vidas e narrativas à história principal se encontram nos dilemas decisivos da vida: pedir ou não demissão de um emprego que te sustenta, mas não te faz feliz; desistir de um sonho ou de um relacionamento que talvez esteja te impedindo de galgar outros sonhos ou respirar novos ares…

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Pela minha descrição, pode parecer que a HQ tem um tom meio deprê e, bom, alguns momentos são mesmo tristes, porém, Alex Robinson consegue captar com maestria a vida rotineira que tem sim seus momentos de lágrimas, mas que, como em qualquer vida “normal”, são intercalados por momentos de risos e festa. Assim, ele consegue ser bem-humorado, mas também profundo, respeitando os sentimentos dos personagens (e os nossos) e rindo de suas bobagens cotidianas (e das nossas).


Sobre a obra:

Título: Fracasso de Público
Volume 1: Heróis Mascarados e Amigos Encrencados (2009 – 240 páginas)
Volume 2: Desencontro de Titãs (2010 – 192 páginas)
Volume 3: Adeus (2012 – 204 páginas)
Autor: Alex Robinson
Editora: Gal Editora


Para saber mais sobre:

Alex Robinson: TumblrTwitter
Prêmio Eisner: Wikipedia
Festival de Angoulême: Matéria – O Espanador
Gal Editora: Facebook / Twitter
Emma Goldman: Wikipedia
Nona arte: Matéria – Quadro a Quadro
Jerry Siegel e Joe Shuster: Matéria – Omelete
Jack Kirby x Marvel: Matéria – R7

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