Preacher – Resenha da Primeira Temporada (amc)

Amém, irmãos…
Sejam bons, Deus vê tudo o que vocês fazem! Ou não…

É, amiginhos pecadores, acabou a 1a temporada de Preacher e a pedido do Cabruuum! fiz uma resenha bacanuda sobre a produção.

crédito: amc
crédito: amc

Havia muita expectativa em torno da adaptação da célebre obra de HQ, de mesmo nome que a série, e até dúvidas se era possível respeitar um material tão polêmico. Apesar da história seguir um caminho um pouco diferente dos quadrinhos, o espírito [olha a ironia incidental] está todo lá.

Tem muito sangue, vísceras, ossos quebrados, sexo sadomasoquista, blasfêmias, tiros, drogas, álcool, porrada, prostituição e… tentativas de redenção.

Abre parênteses.

Agora, a ideia é falar só sobre a série.
Já está no forno uma análise sobre a adaptação em si. Vou fazer isso em parceria com nobre Sara, que fez uma resenha específica sobre a HQ.
O link está no final de texto, confere lá depois que é bacana 😉

Fecha parênteses.

Bom, vamos falar de coisa boa, vamos falar de Preacher. A série é uma obra-prima dramática, cômica, suja, árida, bizarra e torta.

Ligth spoiler alert!!!
Agora vou contar um pouco do enredo, mas sem grandes revelações…

Resumão da história

A história gira em torno do pastor chamado Jesse, que, digamos, não é muito ortodoxo, uma vez que ele frequenta bares, fala muitos palavrões, luta artes marciais no estilo Bruce Lee de mau humor, seca garrafas de whiskey e ainda ostenta uma barba de três dias sem fazer.

Depois de alguns anos de atividades ilegais, Jesse volta para sua cidadezinha natal, no interior do Texas, para cumprir uma promessa feita ao seu falecido pai. A promessa é: ser bom (porque já existe bastante gente malvada no mundo).

Então o pastor está lá, fumando, de ressaca, com a sua igreja quase sempre vazia, tentando miseravelmente ser bom, quando uma entidade entra pela porta da frente e se instala dentro de seu corpo.

Essa entidade enigmática, chamada Gênesis, é o resultado do improvável relacionamento entre um anjo e um demônio. Pois é, apesar de toda rivalidade entre céu e inferno, vocês sabem: o amor não tem limites.

Jesse acorda alguns dias depois da possessão, sem entender direito o que aconteceu e aparentemente sem sequelas, até descobrir ter desenvolvido um dom misterioso. Quando ele se concentra e ordena algo com firmeza, a pessoa que escuta suas palavras faz o que ele mandou, exibindo uma obediência cega e messiânica.

O pastor entende o fenômeno como uma dádiva divina e se sente obrigado a assumir a tarefa de salvar a cidade de seus pecados, independente da vontade das pessoas, ignorando, de leve, a questão do livre-arbítrio.

As consequências de quando Jesse usa o poder da voz são sempre sangrentas e desastrosas… O que faz surgirem certas dúvidas. Ainda assim, ele acredita que há um desígnio divino nos acontecimentos e procura falar diretamente com Deus para saber se está trilhando o caminho certo.

A cena acontece no último episódio e é um clímax da série. Por sinal, acontecem fatos importantes nesse capítulo que concluem a temporada e indicam os rumos da sequência. Não vou entrar em detalhes pra não estragar o momento. Vai lá (na internet) e assiste (porque ainda não há previsão de passar no Brasil)!

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Hard spoiler alert!!!
Bom, agora vou falar de outros personagens e de cenas interessantes, estejam avisados que haverá revelações [estou impossível com esses incidentes…].

Personagens

Apesar do pastor ser o protagonista, existem dois personagens que dividem os holofotes. A ex-namorada de Jesse, chamada Tulipa, e um vampiro irlandês que cai de paraquedas na história.

Cassidy cai, na verdade, sem paraquedas na história. Sua entrada é apoteótica. Ele está em um avião, trabalhando como barman, quando descobre que todos os outros tripulantes são caçadores de vampiro. Começa uma luta, aparecem armas por todos os lados, espirra tanto sangue que o Tarantino ficaria orgulhoso. A intensidade do combate causa avarias irreparáveis no avião, que começa a cair.

Na falta de outra alternativa, o vampiro pula da aeronave em pleno voo e se espatifa no chão. Para um mortal seria o fim, mas para o irlandês não é nada que um pouco de sangue não resolva.

Cassidy talvez seja o personagem mais bacana da série. Ele dispara palavras mais rápido do que uma metralhadora, é viciado em drogas pesadas e prostitutas, tem um semblante junkie e bebe sangue para sobreviver. No entanto, ele é muito brother. Aquele amigo que fala as coisas que precisam ser ditas. Uma consciência moral no enredo. Bem irônico para alguém tão imoral.

crédito: amc
crédito: amc

A última peça do trio principal é daquelas personagens femininas que chegam com os dois pés na porta. Ela é forte, inteligente, determinada e sabe exatamente o que quer. A frase: “garotas boas vão para o céu, garotas más vão aonde querem” foi feita sob medida para ela.

A entrada de Tulipa na série foi tão espalhafatosa quanto a de Cassidy. Ela está em alta velocidade, no seu Chevelle vintage, um carro que os irmãos Winchester teriam, passando pelo meio de um milharal. No rádio, tocando no volume máximo, You’re so Vain da Carly Simon, enquanto ela arranca a orelha de um brutamontes na dentada. Em seguida, a la MacGyver, ela constrói uma bazuca com latas de Nescau e derruba um helicóptero. Menina comportada essa!

crédito: amc
crédito: amc

Além da tríade principal, existem outros personagens secundários que são indispensáveis para dar um certo alívio cômico, uma vez que os protagonistas são “um pouquinho” desajustados e carregam dilemas graves.

Os anjos DeBlanc e Fiore são bons exemplos. Eles eram os guardiões do Gênesis e com a fuga da entidade, eles foram obrigados a vir para a Terra tentar resgatá-la. Os anjos são tão desprovidos de expressões e sentimento que tudo o que eles fazem acaba ficando engraçado. Sem falar que, apesar de muito aplicados, eles são invariavelmente incompetentes.

Uma das cenas mais malucas, e cheia de pedaços de corpos, acontece quando um Serafim, que seria um anjo de hierarquia mais alta, descobre que DeBlanc e Fiore estão escondendo alguma coisa. Começa uma luta, lógico, sempre começa uma luta! Aqui cabe uma explicação: como esses seres divinais são eternos, eles apenas ocupam um corpo na terra, na ocasião em que são mortos, por exemplo, por uma motosserra (risos), um outro corpo surge logo na sequência.

Os anjos e o Serafim devem ter morrido umas vinte vezes, amontoando cadáveres num quarto de hotel de dois metros quadrados. Imagine a cena, amiguinhos.

Outros personagens que valem a pena serem citados são o Xerife Hugo e seu filho, Eugene, também conhecido por Cara de Cu. Eugene ganha esse apelido “agradável” depois de uma tentativa malsucedida de suicídio que deixa seu rosto desfigurado, principalmente a boca, que ganha um aspecto absurdamente repugnante. Ele só come alimentos líquidos para vocês terem uma ideia.

O Xerife mantém um olhar blasé constante e só perde a compostura no momento em que as pessoas desdenham seu filho. Apesar de tratar Eugene com um certo rancor é nítido que o Hugo se preocupa com o rapaz.

O senhor Odin Quincannon é mais um personagem que merece ser citado. Ele comanda a cidade por causa do poder econômico da sua empresa de energia e do seu matadouro. O empresário abandonou a fé após toda sua família ter falecido em um acidente. Ficou malucão mesmo.

Para atrair mais fiéis, o pastor tem a brilhante ideia de fazer Odin voltar a acreditar em Deus, o atrativo para convencê-lo a ir ao culto foi uma aposta: se Quincannon não recuperasse a crença, ele poderia ficar com as propriedades de Jesse, onde está localizada a igreja.

Inicialmente, o empresário reluta, porém, o pastor usa o dom misterioso da voz e ordena Quincannon a servir a Deus. Ele aceita a sugestão e as consequências vocês já sabem: muito sangue e destruição.

Há também o Donnie, um leão de chácara extremamente aplicado, que trabalha para o senhor Quincannon. Donnie tem uma relação sexual apimentada com a sua esposa: ela tem fetiches elaborados, como trajar uma fantasia de Dorothy, do filme clássico O Mágico de Oz, e também é chegada em sadomasoquismo. O pastor confunde isso com agressão doméstica e… Começa uma briga. [risos]

Donnie é um personagem interessante, ele aparenta ser um antagonista, um tipo de vilão, mas a gente acaba percebendo que ele só está tentando fazer o melhor que pode com o que há disponível.

Esse é um mérito de Preacher. Apesar das aparências, a trama vai muito além da diferença unilateral entre certo e errado, céu e inferno, pessoas boas e más. Há um diálogo muito bom entre o Xerife e Cassidy, em que o vampiro fala que até pessoas boas podem fazer coisas horríveis. E adivinha só, ele está certo.

Ah, isso me lembra de mais um personagem, a Emily. Ela deve ser a única personagem normal de Preacher. É uma mãe solteira que ajuda na administração da igreja. Ela tem uma queda pelo pastor e ele, obviamente, não percebe.

Exceto pelo fato dela estar sempre no banheiro, seu comportamento é comum e suas opiniões sensatas até que boom… Ela faz algo imperdoável.

Produção

A produção da AMC é impecável. As cenas de morte são mais violentas que o jogador de futebol Mascherano marcando atacante de velocidade. É muito sangue… Como já citado anteriormente tem muito gore, vísceras e tal. Se fosse mais pesado, só poderia passar de madrugada na TV.

O cenário é poeirento, seco, com casas envelhecidas pelo tempo. A igreja é decrépita, escura e lúgubre. São feitas várias tomadas em plano aberto, reforçando a percepção de cidadezinha no meio do nada.

A caracterização dos personagens é fantástica, em especial a do Eugene, com aquela boca horrível; a do Cassidy, pegando fogo toda vez que toma sol, e a dos anjos, trajando roupas western sempre impecáveis.

crédito: amc
crédito: amc

A seleção dos atores foi acertada. Ainda que a produção seja norte-americana, metade dos artistas é de britânicos. Isso talvez tenha contribuído para boa atuação do elenco, uma vez que o material original é do irlandês Garth Ennis.

A direção é de Evan Goldberg e Seth Rogen, os dois entendem de filmes escatológicos, inusitados e nonsense, entre as produções que eles participaram juntos estão A Entrevista (aquele filme que gerou polêmica com a Coréia do Norte) e Besouro Verde.

Verdade seja dita, este é um projeto corajoso que os diretores fizeram questão de construir. Antes da AMC topar a produção, ela já havia sido abortada pela HBO. Rogen e Goldberg conhecem o universo de Preacher e ainda chamaram para serem coprodutores o roteirista e o desenhista da HQ, repectivamente, Garth Ennis e Steve Dillon. Tudo certinho, com uma direção correta e que honra o quadrinho.

O roteiro é bem amarrado. Alguns acontecimentos do primeiro capítulo só vão se desenrolar 8 ou 9 episódios mais tarde, quando os fatos são revelados de forma completa, como a morte do pai de Jesse e o ceticismo do senhor Quincannon.

Um ponto fraco talvez seja o ritmo, que às vezes é muito acelerado e às vezes mais parado, porém é algo comum em primeiras temporadas. Do meio para frente, a edição foi se acertando e os últimos 4 episódios são perfeitos.

Música… Tenho que falar da música. Uma série dessas tinha que ter uma trilha sonora f&$@. E ela não decepciona. Num clima country, blues, gospel, soul antigo, tem até Willie Nelson. Preciso destacar dois pontos altos: Johnny Cash cantando Personal Jesus do Depeche Mode e uma versão gospel de No Rain do Blind Melon. Ficou lindo.

Ainda sobre música, fica aqui registrada a piadinha infame do Cassidy dizendo que não sabia se Genesis era só um nome horrível ou uma banda insuportável.

Avaliação

Preacher é uma produção de ótima qualidade. Cenário, música, locações, ângulos de câmera, tipografia, roupas, maquiagem, efeitos especiais, é tudo muito bacana, amiguinhos.

É uma adaptação que reverencia o material original, mas segue o próprio caminho, de forma semelhante a outra série da AMC: Walking Dead.

O roteiro é amarrado, criativo e coerente. A edição deixou um pouco a desejar no começo, mas depois se recuperou.

A atuação da maior parte dos atores é boa, com destaque para o vampiro Cassidy, o Xerife Hugo e os anjos Fiore e DeBlanc. A Tulipa, interpretada por Ruth Negga, é uma personagem forte e interessante, porém faltou um pouco de carisma e profundidade na atuação.

O desenvolvimento dos personagens foi muito interessante, em especial de Donnie e da Emily. Eles foram importantes para evidenciar um dos principais argumentos de Preacher: apesar de acontecerem coisas ruins, a maldade não é gratuita. O que a gente faz interfere no que os outros farão para outras pessoas.

Se alimentarmos sentimentos de vingança, a maldade sobressai. E só há um jeito de quebrar o círculo vicioso, por isso, sejam bons, amiguinhos!

A mensagem é bonitinha… Porém, o modo peculiar de Preacher comprovar seus argumentos pede que a audiência aceite temas pesados, violência e um pouquinho de maluquice.

Indicado para quem gosta de ficção a la irmãos Coen ou Spike Jonze. Para quem curte diálogos rápidos e violência na pegada de Quentin Tarantino ou Robert Rodriguez. Para quem acha legal a crueza minimalista de Clint Eastwood.

Easter eggs

Tem uma piadinha interna sobre o Tom Cruise na série. No piloto, quando a entidade Gênesis está à procura de um corpo para possuir, ela tenta “ocupar” diversos sacerdotes e todos, com exceção ao Jesse, literalmente explodem. Um desses homens religiosos é ninguém mais ninguém menos do que Tom Cruise. Uma sacada genial com a Cientologia, religião dos famosos de Hollywood. RIP Tom Cruise.

Quando os anjos Fiore e DeBlanc dão um pulinho até o inferno, o ponto de encontro para a viagem é no mesmo local em que o Jesse Pinkman e depois Walter White, de Breaking Bad, esperam para fugir de Albuquerque.


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Para quem quiser saber mais:

Sobre a resenha da Sara (Preacher HQ) : clique aqui.
Sobre a série Preacher: clique aqui.
Sobre outros trabalhos de Garth Ennis: clique aqui.
Sobre Steve Dillon: clique aqui.
Sobre Glenn Fabry: clique aqui.

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