Três vezes Drummond: um convite para conhecer um grande poeta

Caminhando descontraído e distraído pelas ruas do centro velho de São Paulo, encontro uma enorme tenda que vende livros a preços populares. Com a curiosidade em alerta e amante de promoções, parei para ver quais livros estavam à disposição.

Deparo-me com o livro José e Outros, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Não resisti e o levei para casa, e este se juntou a outros dois exemplares do autor, na minha modesta biblioteca particular, Claro Enigma e Receita de Ano Novo. Neste texto, dividirei a minha impressão com os três livros e contarei um pouco da vida deste grande escritor brasileiro.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, na cidade de Itabira, Minas Gerais. Nono filho do casal Carlos de Paula Andrade, fazendeiro, e Julieta Augusta Drummond de Andrade. Sua formação escolar foi marcada por mudanças de escola e uma expulsão do Colégio Anchieta, em 1919. Em 1921, mudou-se para Belo Horizonte, onde teve seus primeiros trabalhos publicados no Diário de Minas. Formou-se, em 1925, em Odontologia e Farmácia. Sobre a graduação, “Ficou apenas na moldura do quadro de formatura”, explicou à época o jovem Drummond que já tinha o destino traçado nas letras.

Carlos Drummon - Cabrumm14

O livro José e Outros é a reunião de três volumes – José, Novos Poemas e Fazendeiro do Ar – que, curiosamente, não representam uma sequência no conjunto da obra poética do autor.

Em Novos Poemas, destaco o poema “A Federico García Lorca”, em que ele mostra a preocupação com o vasto mundo. Em Fazendeiro do Ar, destaco “Brinde no banquete das musas”, que traduz em palavras a sua inspiração: Poesia, marulho e náusea, / poesia, canção suicida, / poesia, que recomeças / de outro mundo, noutra vida – e o poema “A Luis Mauricio, infante”, em que o autor aconselha: Aprenderás muitas leis, Luis Mauricio. Mas se as esqueceres depressa, / outras mais altas descobrirá, e é então que a vida começa, / e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo, / e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mundo. Em José, destaco o poema que leva o nome da obra e que é um dos seus mais famosos: E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José?.

Em Claro Enigma, publicado em 1951, os poemas ocupam uma posição díspar na obra do autor e buscam um equilíbrio entre o passado e o presente, falando sobre amor, a brevidade da vida e herança cultural com muita maestria. Neste, destaco o poema “Amar”: Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar? / amar e esquecer, / amar, desamar, amar? / sempre, e até de olhos vidrados, amar?.

Em 13 de setembro de 2017, o Sarau Conversar https://www.facebook.com/sarauconversar/ trouxe como homenageado o poeta. O evento é realizado mensalmente na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, e é organizado pela poetisa Lígia Velozo Crispino – autora do livro Fora da Linha.

O sarau, intitulado Uma Pedra no Meio do Caminho, trouxe para os presentes algumas raridades da vida do poeta mineiro. Lígia apresentou algumas curiosidades, com destaque para a biblioteca de 4.000 volumes que hoje está na sede carioca do Instituto Moreira Salles. “A biblioteca em si já diz muito sobre um autor, mas ela tem ainda um mundo subterrâneo: tudo aquilo que o poeta guardava dentro dos livros, um conjunto de centenas de documentos. A flor, desafiando as traças, está entre eles”, enfatizou a poeta. Drummond também possuía interesse pelos animais e, ao lado da amiga Lya Cavalcanti, editou um jornalzinho mimeografado chamado A Voz dos que Não Falam. Em 2018, uma biografia do autor deve ser concluída pelo jornalista Humberto Werneck, a ser editada pela Companhia das Letras.

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Para finalizar, mais um ano se inicia e é hora de pensar no que fizemos e no que deixamos de fazer. Editado em 2015 pela Companhia das Letras, o livro Receita de Ano Novo agrupa em um único volume alguns dos poemas de Drummond sobre o tema. Selecionados por Pedro Augusto Graña Drummond, são poemas em que o espírito das festas de fim de ano trazem uma reflexão importante sobre os sonhos que o novo ano reserva. No poema que dá titulo ao livro, Drummond escreve: Para ganhar um Ano Novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, / mas tente, experimente, consciente. / É dentro de você que o Ano Novo / cochila e espera desde sempre.

E para nós que vivemos constantemente com medo de algo – sentimento este que nos trava a prosseguir –, um medo patético que, muitas vezes, é apenas interno e termina com projetos e sonhos antes mesmo de serem iniciados, deixo para vocês o poema “Congresso Internacional do Medo”. Boa reflexão!

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond Cabrumm


Para quem quiser saber mais:

Sobre o Sarau Conversar:
https://www.facebook.com/sarauconversar/
https://sarauconversar.com.br/

Sobre o poeta:
http://www.carlosdrummond.com.br/

Referências:

José & Outros. Carlos Drummond de Andrade, 13ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2010.

Receita de Ano Novo. Carlos Drumond de Andrade,1ª Ed. – São Paulo: Companhia da Letras, 2015.

Claro Enigma. Carlos Drummond de Andrade,1ª Ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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