Os monstros vivem dentro da gente

O primeiro contato que tive com a obra Onde Vivem os Monstros foi ao ver o filme dirigido por Spike Jonze. Eu não sabia nada sobre a história em si, mas, como acompanho o diretor, foi uma escolha automática que acabou apresentando um universo bacana.

O longa-metragem tem um clima de conto de fadas, em que cada elemento tem significado. É um filme delicado com enredo enxuto. Uma criança, chamada Max, vive em um lar conturbado. Sua mãe é divorciada e está recebendo o namorado enquanto o menino quer atenção.

Por se sentir preterido, o garoto veste um pijama de lobo e age de maneira “selvagem”. A mãe se estressa com o comportamento e grita com o moleque, que, assustado, foge de casa. Ele entra em um veleiro à beira de um lago. O lago parece interminável e gradativamente se transforma em oceano. Depois de algumas horas navegando, Max chega a uma ilha em que todos os habitantes são monstros enormes.

Os produtores do filme optaram por usar efeitos práticos com atores vestindo fantasias para compor as criaturas peludas e desengonçadas. É uma estética orgânica e infantil, que ajuda a contextualizar a mensagem do diretor.

Quando Max desce do veleiro, os sete monstros estão tendo uma discussão. O desembarque do visitante os atrai e eles ameaçam comê-lo. Para evitar ser devorado, o garoto diz ter poderes mágicos e se proclama rei do lugar. Seu primeiro decreto como governante é propor que todos brinquem juntos e sejam felizes. Por alguns momentos, a ordem real funciona. O filme vira uma aventura fantasiosa.

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Entretanto, não é fácil manter a harmonia. Cada monstro apresenta uma conduta diferente que causa conflito. Tem o monstro que é calado, tem o que é insistente, tem o melancólico, outro é impulsivo… e há um que sente raiva. Muita raiva.

A psicologia da narrativa

Existe um entendimento (da psicanálise) necessário para compreender como funciona a cabeça de uma criança. Em um exato momento da vida, nós percebemos que temos sentimentos e a partir daquele segundo tudo muda.

Você deixa de sentir raiva e começa a saber que está sentindo raiva. Passa a existir a possibilidade de autocontrole. Até esta fronteira, os sentimentos nos dominam. Eles são monstros incontroláveis. Se me permite ser honesto, é uma metáfora boa da p****. Sem falar que ela se apoia bonito na teoria freudiana da personalidade delimitando o id, o ego e o superego.

Max trava a sua jornada e se transforma no caminho, reconhecendo seus sentimentos e sua individualidade (e também a dos outros). O filme retrata esse processo de forma elegante, sem esfregar cada ideia na cara do expectador. É cinema da mais alta qualidade, por isso não vou dar mais spoilers.

O livro

Depois de assistir Onde Vivem os Monstros, procurei saber mais sobre o livro e o escritor que inspirou o trabalho: Maurice Sendak.

Norte-americano de origem judia, Sendak era ilustrador e autor de livros infantis. Em 2012, ano de sua morte, ele concedeu uma entrevista polêmica a Stephen Colbert revelando, entre outras coisas, que era gay e que não planejava suas histórias para crianças. Nesse programa, ele parece bem rabugento e assim era considerado por muitos, genial e mal-humorado.

No ano de 1993, o jornal Los Angeles Times fez uma matéria sobre o escritor, abordando suas origens e inspiração. Nesse texto, ele revela que idealizou a forma dos monstros ainda criança quando familiares visitavam sua casa para o jantar aos domingos. “Eles encostavam em mim com sua respiração ofegante, me apertavam e beliscavam. E seus olhos eram manchados de sangue e seus dentes eram grandes e amarelos”, relatou.

O original em inglês, Where the Wild Things Are, foi publicado pela primeira vez em 1963. É um livro com ilustrações rebuscadas e pouquíssimo texto. Existe versão nacional, da extinta Cosac Naify, de capa dura.

Apesar dos principais conceitos do longa estarem no livro, eu fiquei surpreso com a complexidade do universo e da narrativa da adaptação proveniente de algumas dezenas de palavras. Acredito que isso só foi possível por causa da qualidade do argumento criado por Sendak.

O escritor também é responsável por Seven Little Monsters. No Brasil, uma série inspirada na obra passa na TV Cultura com o título Os Sete Monstrinhos.

O diretor

Spike Jonze começou a carreira filmando os amigos realizando manobras em skates. Depois fez propagandas e vídeos musicais. A canção Island in the Sun do Weezer, que você pode ouvir abaixo, tem um clima semelhante ao do filme.

O próximo passo seriam os longas-metragens e ele não deixou a desejar. Quero Ser John Malkovich e Her são exemplos da genialidade do diretor. Histórias originais até o talo, com estética trabalhada nos mínimos detalhes.

Há um boato curioso de que o filme Her seria uma resposta ao Lost in Translation, da cineasta Sofia Coppola. Os dois foram casados e, aparentemente, lavaram a roupa suja no cinema. Se quiser saber mais, é só ver o vídeo do Gustavo Cruz (canal do YouTube com vídeos sobre o universo dos filmes).  

Ah, esqueci da trilha sonora do Onde Vivem…! Quem assina é a Karen O, da banda Yeah Yeah Yeahs. Tem no Spotify, nesse link: https://open.spotify.com/album/1GJHGVV5KGS2cV0oBc58VQ?si=m9K5zbYFRDCAXx8US3CD7A

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