Bruna Stamato desmistifica fantasmas do pós-divórcio

Recebi uma indicação: “Ricardo, que tal você ler e escrever sobre ‘Nunca quis um marido, sempre quis um companheiro’, da Bruna Stamato?” O livro publicado pela Giostri Editora, em 2017, é um relato da autora carioca sobre o fim do seu casamento. As 116 páginas separadas em 11 capítulos descrevem os sentimentos e as fases pós-separação de Bruna.

CAPA LIVRO - BRUNA (1)

A sugestão de leitura chegou até mim por meio do meu amigo Victor, também colaborador do Cabruuum. Por eu ter vivido situação semelhante à da autora (divórcio após anos de casamento e com uma filha), ele estava curioso por semelhanças e contrapontos sobre as experiências. Topei, achei que a resenha ficaria interessante, ainda mais pela obra mostrar a visão feminina do processo.

Spoiler dessa resenha: no final tem um vídeo da autora para os leitores do Cabruuum e uma entrevista exclusiva! 

Bom, confesso que o livro me chocou no início. Senti-me, em certos momentos, ofendido pelo modo como ela descreve os homens, mas depois das primeiras 20 páginas e após uma reflexão interna sobre como me sentia e agia quando meu casamento acabou, relaxei.

Quando se termina um relacionamento, muitos sentimentos desagradáveis surgem e, naquele turbilhão de acontecimentos, o ex-marido ou a ex-esposa acabam se tornando personas non gratas. Mas o tempo coloca a vida e os sentimentos em novos trilhos.

“As coisas não foram sempre um mar de rosas e creio que em qualquer família e qualquer convivência intensa desentendimentos acabem acontecendo, mas o importante é que eu já superei todos. Esquecer, não faço questão. Mas superar é preciso.”, trecho do capítulo “Primeiro, A Culpa”.

Empatia: os dois lados da moeda

Numa época em que não olhamos para o outro e muitas vezes não temos tempo de dividir sentimentos devido à correria do cotidiano; num período em que convivemos apenas com os extremos, ou seja, ou se ama ou se odeia; passar pela experiência de ler esse livro, trouxe-me a oportunidade de conhecer um pouco das dores, dos medos e das angústias que uma mulher vive após o fim de um casamento.

Concordo que a sociedade cobra atitudes e coisas diferentes de ambos os sexos, mas eu sei o que eu passei e vivi nesse período. Na época, como ex-marido e pai de uma menininha, a vida não foi muito tranquila e, olhando hoje para trás, o período me parece nebuloso, situações que poderiam ter sido facilmente resolvidas se arrastaram por conta dos sentimentos feridos.

Parecido com a autora, o término do meu casamento também não foi agradável. Por meio do livro, tive a oportunidade de conhecer o olhar feminino dessa situação e analisar que os sentimentos e objetivos dos dois lados são, em muitos momentos, basicamente os mesmos: todos nós queremos de alguma nova maneira ser felizes.

BRUNA STAMATO.jpg

A autora consegue, em palavras, descrever muito bem esse momento. A leitura começa pesada, com rancores e mágoas. Um sentimento de tristeza que, lendo, você consegue até sentir. No entanto, essa parte é fundamental para as fases posteriores. Conforme a leitura vai se desenrolando, percebe-se a clara intenção da autora de proporcionar uma luz para a sua leitora de que existe vida após a morte de um relacionamento. O livro passa a ser um bate-papo descontraído.   

“E hoje, me sinto na OBRIGAÇÃO de te dizer, amiga, que os nossos medos são, na maioria das vezes, ratinhos projetando enormes sombras nas nossas almas”, trecho do capítulo “O Renascimento”.

O interessante é que a autora não se prende em apenas narrar as suas experiências pessoais nesse período, mas, em diversos momentos, dá conselhos e faz questionamentos às leitoras e também aos leitores, sem cair na fórmula da autoajuda.

O acabamento e a escrita do livro estão muito bem feitos e a autora se expressa de forma simples, clara e objetiva. Recomendado para todas as mulheres (e, por que não, a todos os homens) que estão nessa fase difícil e conturbada que é o fim de um casamento. Quem se propor a embarcar neste relato, se identificará em muitos momentos e encontrará certamente um relato de vida muito sincero. Boa leitura a todas e a todos!


O Cabruuum, por meio da agência Aspas e Vírgulas (obrigado pela paciência, Marcelo), conseguiu uma entrevista exclusiva com a autora Bruna Stamato. Em vídeo, ela conta o que os leitores podem esperar do livro. Em texto, conversamos sobre alguns pontos importantes da obra. Tá bem legal:

  1. No primeiro capítulo, você aborda o sentimento de culpa. Qual conselho você pode dar para que esse sentimento, necessário para as etapas futuras do processo de separação, não se prolongue demais e possa virar algo mais sério como uma depressão?

R.: Acredito que a culpa seja algo inerente às mulheres e mais ainda às mães! Se eu posso dar um conselho, é para que analisemos a situação da forma mais racional e menos emocional possível. Sei que é difícil porque em uma separação os sentimentos estão todos à flor da pele, mas analisar com mais imparcialidade nos faz aceitar os fatos mais facilmente e, quem sabe desta forma, nos demos conta que a culpa não é exclusiva de um dos parceiros, e sim resultado de todo um conjunto de ações e escolhas que nos levou até esse ponto da separação.

  1. Em determinado momento do livro, você cita que a ira e a vingança, muitas vezes, não são contra o ex-companheiro, mas sim uma maneira de nos autopunirmos. Hoje, que conselho a Bruna Stamato dá para quem está nessa fase e não consegue enxergar que está fazendo mal a si mesma?

R.: É o que eu costumo dizer: Perdoar o outro, muitas vezes, é mais fácil que perdoar a si mesmo. Digo para as minhas leitoras que elas usem o meu álibi contra o tribunal implacável da mente, aquele que nos assola quando deitamos para dormir: “Foi tudo por amor”. Tentemos focar nas partes boas e no que ganhamos (filhos, família, vivência) e não somente no que estamos perdendo. Se foi tudo por amor, então, para mim, foi tudo válido, tudo se converte em experiência e bagagem de vida. Nós podemos ser nossos piores inimigos. Aceitar que tudo que fizemos, incluindo os erros, foi por um sentimento tão nobre nos acalenta e conforta. Perdoe-se!

  1. Quando terminamos um relacionamento, somos estimulados a mudar a maneira de nos vestir, a frequentar novos lugares, a irmos a restaurantes da moda, a baladas, ou seja, a sairmos de casa. No entanto, são poucas as pessoas que nos dizem para ficarmos sozinhos numa solidão consentida, num processo de autoconhecimento. Você toca muito bem nesse assunto, mas de forma breve. Gostaria de saber se esse ponto partiu de uma reflexão interna, das vivências no dia a dia, ou se alguém lhe deu essa dica. (Se foi uma dica dada por alguém, por favor, descreva como foi esse momento e como você aceitou essa dica.)

R.: É que eu, na verdade, não me julgo muito boa em conselhos! *risos* Por isso, no livro, compartilhei apenas o que funcionou para mim, o que me fez melhorar e superar na prática, não apenas na teoria! O divórcio é o final de um ciclo, é um ponto final, mas para começarmos um novo capítulo. Eu saí desse processo emocionalmente muito cansada, foi a primeira vez que meu coração pediu trégua. Pediu paz; perdão. Eu precisava me encontrar, me curar, fechar as minhas feridas primeiro, para poder me recomeçar com real qualidade de vida. Foi então que eu me dei conta que a solidão não era tão ruim assim… naquele momento, era uma necessidade da minha alma. E desde então, eu perdi meu medo da solidão e passei a encará-la como uma amiga. Isso me levou a um autoconhecimento grande e muito válido.

  1. Nos agradecimentos, você sugere que a leitora agradeça a todos, inclusive às pessoas que, por ventura, lhe fizeram mal. A Bruna Stamato sempre foi uma mulher agradecida pela vida ou aprendeu a fazê-lo após o fim do casamento?

R.: Nem sempre! Na verdade, eu tenho uma natureza bem reclamona! Mas reclamar nunca me levou a lugar nenhum nem me ajudou a superar as minhas crises, ao contrário do ato de agradecer, que eu passei a estimular muito mais fortemente após a morte do meu pai. A morte é bem viva… é um choque tremendo de realidade que, neste exato segundo estamos aqui, nos próximos… ninguém sabe. Então, por que gastarmos nossos preciosos dias na Terra focados no que nos falta, nos problemas e nas reclamações? A gratidão promoveu uma profunda transformação no meu ser, tornou a minha vida muito mais leve, me livra de conflitos desnecessários e ajuda a cicatrizar muito mais rápido as minhas feridas. Agradecer é dizer à vida e a Deus “Mesmo que eu não te entenda, eu confio em você”. É um ato de fé.

  1. Você já recebeu relatos de leitores mencionando a sua obra como um ponto de partida para um novo recomeço? Algum em especial que você possa contar para a gente (não precisa citar nomes)?

R.: Sim! Recebo diariamente muitos relatos e adoro, faço questão de ler e responder um por um! Na maioria das vezes, são mulheres dizendo que se identificaram muito com o livro, pois passaram ou estão passando por um divórcio e têm a impressão que não darão conta, então, de alguma forma, encontraram uma luzinha no final do túnel e isso me deixa realmente muito feliz e grata, receber essas mensagens não tem preço. Mas, tem um caso, em especial, que me chamou muita atenção, foi uma mensagem inusitada, de um rapaz dizendo que eu deveria ter mais responsabilidade ao sair escrevendo essas coisas, pois a mulher dele foi embora de casa por causa do meu livro! Eu fiquei angustiada e com uma certa pena, mas respondi “Será que foi por causa do meu livro mesmo? Não era eu que convivia com ela!! Acho que foi algo que você fez ou deixou de fazer, não?”. Ele nunca mais respondeu… *risos*

  1. Apenas por curiosidade: Você recebeu algum feedback do seu ex-marido sobre a obra? 

R.: Infelizmente não. Acredito que ele nem tenha lido e até hoje pense que o livro é destinado a falar mal dele e de tudo que vivemos e, na verdade, é até o oposto. Apenas tentei passar o meu lado da história, a minha parcela de culpa e o que me fez renascer, para empoderar e dar força a outras mulheres que estão nessa situação.

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