Ronin: como deixaram alguém contar uma história tão absurda?

O mercado cultural, como qualquer outro mercado, precisa de produtos que vendam e gerem lucro. É assim que o sistema funciona. Tudo certo. Porém, uma consequência direta dessa faca no pescoço do desempenho comercial é a pasteurização das obras que conseguem ver a luz do dia.

Exemplo disso é o pensamento da grande parte das editoras: “este livro acabou sendo um best seller, vamos fazer um monte de lançamentos parecidos”. E meses depois você encontra 10 livros semelhantes nas estantes das livrarias. É compreensível, as editoras precisam sobreviver.

No entanto, talvez motivado pela saturação de produtos tão similares, sempre surge alguém, uma empresa, um grupo disposto a quebrar com a monotonia daquilo que dá certo para fazer algo diferente. Ronin é isso!

Imagine esse enredo: no Japão feudal, um samurai derrotado, isto é, um ronin, luta contra o demônio que matou seu mestre. Para subjugar o demônio, ele tem uma espada especial que se alimenta do sacrifício de inocentes, no entanto, o guerreiro japonês é super do bem (gente bacana mesmo) e só havia derramado sangue de malfeitores.

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Capa da edição definitiva de Ronin do Frank Miller

A solução que o Ronin encontra para vencer o demônio é se sacrificando no mesmo momento em que ele fere mortalmente o inimigo. Porém, a magia do demônio é forte e ele entoa uma maldição que prende ambos na espada.

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Cena do seppuku onde o Ronin e o demônio Agat morrem

800 anos depois, numa Nova Iorque distópica cyberpunk, um teste científico realizado na espada acaba liberando as duas entidades. O Ronin assume o corpo de um paranormal, que não tem pernas e nem braços. E o demônio ocupa o corpo do dono de uma grande corporação tecnológica e usa todo o poder econômico desse empreendimento para buscar vingança.

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O paranormal Billy Challas recebendo membros artificiais

Não vou continuar para não dar spoilers. Mas a história fica ainda mais doida, acredite! Se você não percebeu minha empolgação com esse enredo. Vou deixar explícito: é do c*****o!

E o mais legal é que essa HQ, de conteúdo complexo e voltada para um público mais adulto, foi lançada entre 1983 e 1984. Uma publicação muito à frente de seu tempo. O selo Vertigo da DC, por exemplo, com um perfil mais maduro, viria a ser lançado somente em 1993.

A partir de agora, vou falar como deixaram alguém contar uma história tão absurda (de boa, claro!).

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Ronin ocupando o corpo do paranormal Billy Challas

Deixa o cara trabalhar

Existem muitas ideias incríveis na cabeça de pessoas criativas, mas como argumentei no início do texto, conseguir transformá-las em produtos comercializáveis no mercado editorial é um processo megacomplicado. É necessário ser a pessoa certa, na hora certa com a ideia certa.

Frank Miller tinha conquistado muito sucesso no início dos anos 80 na Marvel. O personagem Demolidor, que ele repaginou, ficou tão popular que a DC pensou: “Opa… precisamos trazer esse cara para o nosso time”.

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Frank Miller

Na DC, Frank Miller pôde fazer o trabalho que queria, do jeito que queria, com total liberdade. Resultado: essa belezura de história. E olha que depois ele ainda produziria as melhores fases do Batman, inclusive, O Cavaleiro das Trevas.

Um brinde à insistência das pessoas criativas!


Sobre a obra:

Título: Ronin (Edição Definitiva)
Autor: Frank Miller
Publicação: Panini
Editora: DC
Páginas: 336


Para saber mais sobre:

Frank Miller: Omelete
Marvel: Site / Facebook
DC: Site / Facebook
Panini: Site

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