Bob Dylan: o músico, poeta e artista plástico que levou o Nobel de Literatura de 2016

Você não deve conhecer Robert Allen Zimmerman, mas já deve ter ouvido falar de Bob Dylan, nome muito comentado nos últimos dias por conta da escolha ao prêmio Nobel de Literatura em 2016.

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O músico americano nasceu em Minnesota, no dia 24 de maios de 1941. Hoje, aos 75 anos de idade, foi recentemente condecorado como ganhador do principal prêmio da literatura mundial – o anúncio foi feito no dia 13 de outubro. A escolha foi divulgada em um evento em Estocolmo, na Suécia. Além do recente título, Dylan, que é considerado um dos maiores nomes da música do século XX, poderá receber oito milhões de coroas suecas (cerca de R$ 2,9 milhões), além desse prêmio o cantor já ganhou Oscar, Grammy e o  Prêmio Pulitzer.

A opção por um músico – e não por um escritor de ofício – aparentemente soa fora dos padrões da Academia Sueca, mas pelo que se sabe o nome do Dylan vinha sendo cotado havia alguns anos nas casas de apostas londrinas. A editora Companhia das Letras promete para os próximos meses a publicação do livro “The Lyrics 1961-2012”, que reúne todas as letras de Bob Dylan. A editora comemorou o prêmio, mas comenta que a edição já vinha sendo gestada há tempos, mesmo antes da premiação.

O músico que também é poeta (com outros livros lançados nos EUA), é artista aclamado, sobretudo pelo lirismo de suas letras. Para o fotógrafo mineiro Luiz Paulo de Morais, o músico é um revolucionário que mudou a forma de fazer música transformando de mero entretenimento para também, ser um ato de protesto: “Em seu segundo disco, ‘Freewheelin’, Bob Dylan foi direto ao ponto ao contestar o “status quo”. Antes dele outros artistas haviam composto músicas de protesto – como Billie Holliday, por exemplo –, mas ninguém tinha sido tão direto quanto ele foi”, explica Luiz Paulo.

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Para Denis Prado, guitarrista, compositor e jornalista, muito se tem falado sobre o cantor e compositor que ganhou o Nobel de literatura 2016: “Bob Dylan não é bom cantor, sua voz é anasalada e sua dicção não é das melhores, nem um bom músico muito menos um grande performer, mas nada disso impediu de ser um dos artistas mais influentes da segunda metade do século XX até os dias de hoje”, argumenta Denis Prado.

De acordo com Denis, o cantor é dono de uma criatividade que parece não ter fim. Ele foi um grande quebrador de paradigmas, elevou o folk americano (MPB deles) a patamares antes inalcançáveis, incluiu guitarras, baixos, teclados a um estilo que tradicionalmente utilizava apenas instrumentos acústicos; escreveu canções de protesto contra o racismo, a guerra do Vietnã, a injustiça social, a Guerra Fria, entre outros.

“O texto foi sempre seu grande diferencial, sua mensagem ora velada por trás de inteligentes alegorias, ora direta como um míssil, atingiu muita gente grande. Um exemplo é a música “Hurricane” feita para o pugilista Rubin Carter, o Hurricane, contendo mais de oito minutos e apoiado em seis acordes onde, com exceção dos refrões, nenhum verso se repete”, explica Denis Prado.

Para o poeta e cineasta paulista Donny Correia, a música é uma das mais icônicas canções já compostas contra a opressão das autoridades, pois narra, quase como uma crônica policial, a forma injusta como um lutador negro, Rubin Carter, o Hurricane, foi acusado de assassinato, sendo preso e condenado depois de um julgamento suspeito.

O fotógrafo Luiz Paulo lembra que novos parâmetros de composição também estão presentes na canção “Like a Rolling Stone”, que se destaca por ser uma composição longa, o que era pouco usual à época (1966), sem refrão e com letra que conta uma história de começo, meio e fim bem parecido com um romance: “Dylan é considerado o maior letrista de todos os tempos, muitos de seus discos parecem um romance, pois tratam de um só tema, como o álbum “Blood on the Tracks”, que trata exclusivamente de separação”, conclui.

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Realmente, Dylan pode não ser um bom cantor, um bom violonista ou um grande showman, mas Lennon, Jagger, Hendrix, Springsteen não seriam os mesmos se ele não tivesse aparecido antes. “Virtuoso da palavra” é o termo que melhor o representa, e por esse motivo, ainda ouviremos muitas de suas ideias por aí, sendo sopradas ao vento.

Na opinião de Donny Correia, a maior contribuição de Bob Dylan para o cenário musical mundial foi a influência para os novos artistas dos anos 60, que proporcionou mudanças comportamentais importantes para a época: “O Bob é uma figura importantíssima para as revoluções culturais dos anos 1960. Influenciou uma geração de novos artistas. Mudou a estética musical dos Beatles, cantou a liberdade e trouxe o folk americano para as maiores paradas de sucesso. Sem dúvida, ele é o maior representante da geração que lutou contra o racismo, o sexismo e a Guerra do Vietnã”.

No campo das artes plásticas foi inaugurada recentemente uma exposição em Londres (que ficou até o dia 11 de dezembro) onde os fãs de Dylan puderam apreciar na galeria Halcyon de Mayfair, bairro nobre do centro da capital britânica, as pinturas a óleo, acrílicas ou aquarelas que formam a exibição que revelam uma faceta menos conhecida de Bob Dylan.

No dia da divulgação do resultado a secretária-geral da Academia Sueca, Sara Danius, declarou que Dylan foi nomeado “por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana”. A academia citou ainda que “Dylan tem o status de um ícone” e que “sua influência na música contemporânea é profunda”. “Ele é provavelmente o maior poeta vivo”, declarou Per Wastberg, membro da instituição.

Ninguém duvida que Bob Dylan seja um artista de muitas facetas e agora sustenta o Nobel de Literatura que dividiu opiniões de pessoas ligadas tanto à literatura como a música: “Apesar de haver uma forte demonstração de que a Fundação Nobel aproveitou para elevar seu marketing, como poeta eu gostei bastante desta decisão do prêmio, pois quebra este estigma de que música não é poesia e que poesia fica em segundo plano da literatura. Creio que o que mais pesou não foi somente sua atuação como músico e letrista, mas o conjunto de sua pessoa física em atuação na arte e na política”, comentou Donny Correia.


Fotos enviadas por: Luiz Paulo Morais

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1 comentário Adicione o seu

  1. Texto incrível, uma ótima introdução ao Mestre Dylan.

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