Quadrinhos para adultos: Conheça a ilustração “XXX” de Dave McKean

O valor que as pessoas atribuem aos quadrinhos depende de diversos fatores, porém, durante muito tempo, a questão mais relevante era a idade do leitor. Tradicionalmente, os quadrinhos eram dessas coisas que a gente poderia adorar na infância, mas pegava mal se na vida adulta ainda mantivesse uma paixão tão pueril.

E era uma transição natural, até porque os problemas realmente vão ficando mais complexos e as responsabilidades cobram um preço. No frigir do ovos, não sobra muito tempo para super-heróis quando precisamos pagar contas.

No entanto, há uns 20 anos, algo começou a mudar. O mercado das HQs passou a apostar em publicações com temáticas menos infantis e um novo nicho tomou corpo.

Nomes como Frank Miller, Grant Morrison, Garth Ennis e Alan Moore ganharam espaço publicando histórias complexas, com mais sutilezas e claramente voltadas para adultos.

Neil Gaiman e Alan Moore_Dave McKean
Neil Gaiman e Alan Moore

Resumindo uma história longa, o que aconteceu foi que a DC Comics percebeu a demanda por quadrinhos maduros e criou um selo nessa pegada, chamado Vertigo. Como os autores norte-americanos estavam viciados no padrão heroína-de-biquini-sexualida-peituda ou ação-truculenta-estilo-Schwarzenegger, a solução foi importar talentos britânicos, um pouquinho mais, digamos, excêntricos.

Chega de close-up na virilha das personagens femininas, amiguinho… kkkkk

O resultado foi extraordinário. As bancas receberam obras de arte como Sandman, Hellblazer, O Mostro do Pântano, V de Vingança, Transmetropolitan e Preacher. Imagina você na década de 90, usando calça xadrez, ouvindo Nirvana no discman e acompanhando o Constantine fumar 92 cigarros por dia. Show…

Bom, contei tudo isso para contextualizar essa fase, que foi uma das mais criativas na história das HQs. O céu era o limite, os escritores criavam as narrativas mais malucas e queriam ilustrá-las como se fossem quadros de museu e havia um mercado disposto a bancar a brincadeira.

Foi nesse ambiente que o ilustrador inglês Dave McKean começou a conquistar reconhecimento. A forma como ele produzia (e ainda produz) seus trabalhos era completamente diferente dos processos vistos nas editoras de simplesmente desenhar e depois colorir. McKean misturava (e ainda mistura) a ilustração comum com fotografia, escultura, colagens, montagens artísticas com objetos e pessoas.

Dave McKean_Dave McKean
Dave McKean

O resultado desse formato multiplataforma-metalinguagem é único e surpreendente. Você pode ficar horas admirando uma página para assimilar algo tão elaborado.

Uma das primeiras publicações da Vertigo, Orquídea Negra, foi ilustrada pelo inglês. Na história, criada por Neil Gaiman, a personagem principal tem sua identidade revelada e é assassinada pelo vilão, que diz algo como: “… eu leio quadrinhos, sabe o que eu não vou fazer? Eu não vou te prender pra te interrogar depois. Não vou criar um raio laser supercomplicado. Não vou te deixar sozinha aí pra fugir. Eu vou te matar. Agora”.

Pow, tiro na cabeça.

Caraca, os caras mataram a protagonista na página 6. Esse, normalmente, seria o ápice da HQ. E, como eles tiraram a expectativa da frente, o que sobrou foi a história que eles realmente queriam contar. A Orquídea Negra ressurge como um ser híbrido heroína-planta sem muitas lembranças do que ocorreu ou nutrindo um desejo de vingança. Sua maior preocupação era entender quem ela era e por que estava acontecendo tudo aquilo.

Show de bola… Busca por identidade é um tema adulto, não é? O lance dos super-poderes e dos acontecimentos sobrenaturais deixam de ser a essência da narrativa para se tornarem o contexto. Um tipo de alegoria para desvendar situações cotidianas que estão lá na cara da gente, mas não vemos.

E o melhor, a ilustração é tão inovadora quanto a proposta narrativa e os diálogos. Você pode tranquilamente enquadrar algumas passagens da HQ, pendurar na parede e impressionar as visitas.

A paleta de cores carregada no cinza, no verde e no púrpura imprime muita personalidade. É só bater o olho em qualquer página que você já sabe de qual quadrinho se trata.

Orquídea Negra e  Monstro de Pântano_DaveMckean
Orquídea Negra e  Monstro de Pântano

Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo

Essa HQ, escrita por Grant Morris e ilustrada por McKean, foi uma das mais vendidas e comentadas da história. A narrativa segue duas linhas paralelas, a primeira conta a origem do famoso sanatório, para onde o Batman costuma mandar seus adversários, e a segunda fala sobre uma rebelião em que os inimigos do Morcego, liderados, claro, pelo Coringa, exigem que o justiceiro compareça ao asilo.

O negócio é tenso. Para se ter ideia, o Batman aceita se encontrar com os rivais quando o Coringa simula estar apontando um lápis no olho da recepcionista! Ahhhh. A intenção dos vilões é expor o lado vulnerável do herói, que combate o crime mais por vingança e pela dor da perda dos pais do que por algum sentimento altruísta.

Fica a sensação de que os malucos estão certos e, no fundo, o Batman poderia ser um dos pacientes do sanatório.

E a arte. Ah, a arte! Cada página vale a pena. Parece um filme noir distorcido. Você praticamente só enxerga vultos. Tem uma loucura no traço. Um sentimento de irregularidade e intermitência. É realmente perturbador.

Asilo Arkham_DaveMcKean
Asilo Arkham

Violent Cases 

A parceria entre McKean e Gaiman já vinha de um trabalho anterior, por sinal, a HQ da Orquídea Negra tem muito da proposta artística de Violent Cases. O enredo, porém, é despido de eventos sobrenaturais e gira em torno das lembranças do protagonista que um dia, durante a infância, quebra o braço e é atendido por um médico ligado à máfia de Al Capone.

A arte nesse trabalho tem um aspecto de lembrança. As cores são mortas e quase sem saturação, algo entre o cinza, o bege e o marrom. Se a realidade é colorida, um flashback deve ser assim com um jeitão de sépia.

Violent Cases Dave McKean
Violent Cases

Capas de Sandman e Hellblazer

Eu fui um leitor atrasado de Sandman. Só fui descobrir a HQ depois de experimentar vários trabalhos da dupla Gaiman e McKean. E isso foi um problema. Minha expectativa era ver uma história criativa com ilustrações do mesmo nível. Infelizmente, a proposta gráfica é bem mais conservadora do que eu esperava. Não é ruim… só não era como eu esperava, demorou bastante para conseguir engrenar em Sandman, mas é uma leitura obrigatória.

Um dos pontos altos da versão definitiva da Panini é que ela tem todas as capas das edições periódicas. Apesar de Dave McKean não ter feito as ilustrações do miolo, ele fez todas as capas.

Montagem para capa de Sandman_Dave McKean
Montagem para capa de Sandman

A técnica foi bem bacana. Ele criava uma montagem em tamanho real, assim… do tamanho de uma pessoa. Colocava uns objetos relacionados a história em nichos laterais e uma ilustração enorme no meio. E fotografava. Chique.

Ele também usou técnicas de foto e colagens para ilustrar as primeiras capas de Hellblazer. Dá uma olhada…

Capa Hellblazer_Dave McKean
Capa Hellblazer

Som e Ruído

Um quadrinho sobre morte. Mas não no estilo da Morte dos Perpétuos, que é leve e doidinha. A faceta abordada aqui é bem mais pesada.

Um cineasta é diagnosticado com um câncer terminal enquanto elabora um filme sobre o fim do mundo. Os enredos das duas histórias, o apocalipse da Terra e o apocalipse pessoal, seguem lado a lado de maneira meio caótica e fragmentada, assim como o processo criativo normalmente funciona.

Os diálogos, ou pensamentos, são carregados de devaneios e tentativas de entendimento sobre o que é importante diante do fim inevitável. Achei genial o título da HQ, para mim, encontrar razões para o que realizamos durante a vida é como encontrar som (legível, ou melhor, audível) no ruído.

A ilustração acompanha o texto pesado com cores predominantemente escuras como preto e azul-petróleo. O protagonista moribundo é retratado com cores frias e com traços realistas, ou mesmo fotografias, enquanto os personagens do filme são mais estilizados.

Há colagens e fotografias que deixam a obra ainda mais impactante e, muita vezes, real. É um trabalho inquietante que estimula o pensamento sobre o valor da vida, do sucesso, do reconhecimento e do amor pelo que se faz.

Som e Ruído_McKean
Som e Ruído

Antigamente, gostar de HQs poderia até ser enquadrado como sintoma de síndrome de Peter Pan, no entanto, a dedicação e o desempenho de artistas como Dave McKean provam que o gênero amadureceu e oferece opções para quem ama a boa leitura. Negar isso é puro preconceito.

Bom, essas foram algumas realizações do McKean. Ele fez muito mais coisas como capas de CDs. Também ilustrou romances e livros para crianças. Sem contar que ele já fez até selos para o correio britânico e ainda toca piano numa banda de jazz.

Você conhece esses trabalhos? Gosta de outros que faltaram na nossa seleção? Conta pra gente.


Para quem quiser saber mais:

Site de Dave McKean (meio abandonadão, mas com diversas imagens): http://www.davemckean.com

Twitter Dave McKean (Ele posta novidade periodicamente): https://twitter.com/davemckean – @DaveMcKean

Vertigo (site do selo da DC): http://www.vertigocomics.com

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